AUTISMO: FORMAÇÃO DE PROFESSORES E AS BARREIRAS DA INCLUSÃO MEDIANTE AS TECNOLOGIAS DA INOVAÇÃO
Danúbia de Medeiros Bezerra Boza
Scheilla de Castro Abbud Vieira
INTRODUÇÃO
Os processos de organização de sistemas educacionais inclusivos trouxeram consigo inquietações muitas vezes traduzidas em desafios ao profissional da educação, no que tange às diferenças sensoriais, físicas, intelectuais e mentais que caracterizam os educandos que compõem o público-alvo da Educação Especial.
Embora a presença de educandos com características acima referidas na classes comuns de ensino regular seja a norma vigente, mais especificamente a partir da adoção pela educação brasileira de princípios não-segregacionistas, é possível observar que as práticas de gestão de sala de aula ainda requerem do professor, formação adequada para enfrentar, sob pena de não alcançar os objetivos propostos para uma educação igualitária.
Este artigo pretende abordar a qualificação de profissionais da educação na construção de práticas de inclusão de alunos com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA no ambiente educacional, por meio de conhecimentos que possibilitem a compreensão dos aspectos provenientes do TEA. Para tanto, o enfoque será sobre a importância da formação de professores da Educação Especial, quanto ao uso pedagógico das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação – TDICs, em um contexto educacional inclusivo.
O objetivo é provocar reflexões acerca das dificuldades que pessoas autistas enfrentam no acesso à escola, em serem sujeitos atuantes no meio social dentro do princípio da busca de autonomia enquanto direito, enfim, debater sobre como a atuação nessa área do conhecimento poderia garantir a esse indivíduo melhor qualidade de vida. Embora tenha-se esses aspectos estejam previstos e garantidos em normativas legais, ainda é preciso que sejam implementados através da construção de políticas públicas que envolvam ações para o atendimento efetivo e de qualidade dessas pessoas em qualquer instância, o que envolve formação adequada para o uso de ferramentas tecnológicas educacionais.
O grande avanço no campo da tecnologia nos últimos anos tem levado o professor a enfrentar dificuldades para mediar a aprendizagem de educandos que estão envolvidos com inúmeros aparatos tecnológicos. Nesse cenário de construção digital como poderia o profissional da educação utilizar abordagens pedagógicas com o apoio dessas inovações, e simultaneamente, conseguir êxito na inclusão de todos, considerando que estamos diante de uma geração conhecida como “nativos digitais”, nascida em contato direto com as transformações que as tecnologias têm propiciado à sociedade de modo vertiginoso?
Esse contato tecnológico tem possibilitado que crianças e jovens se apropriem de forma bem mais rápida das informações, e quando se trata das comunicações, mediante a possibilidade de acesso aos diversos recursos tecnológicos digitais que interligam as pessoas pelas infovias do ciberespaço, novas dinâmicas sociais se estabelecem. Nesse sentido, a sociedade atual, não só passivamente recebe informações, mas também faz parte da construção de conteúdos e interações nesse mundo de recursos (webquests, blogs, sites educativos, podcasts, aplicativos, entre outros) que avançam dia após dia.
Entretanto, é imprescindível que se reflita sobre como a variedade de ferramentas digitais podem proporcionar melhorias na aprendizagem de sujeitos com deficiência e como suas multipossibilidades se tornem ferramentas de apoio aos trabalhos pedagógicos de professores que atuam diretamente com crianças e jovens no Transtorno do Espectro do Autismo – TEA. Paralelamente, ponderar se de fato essa interação vem facilitar e inovar o ensino inclusivo, ou seja, que se proponha a um olhar direcionado a todos os alunos de forma igualitária, conforme suas especificidades.
A Lei Brasileira de Inclusão, Lei Nº. 13.146/2015 (BRASIL,2015) garante a educandos com deficiência amparo e atenção qualificada. Tanto as famílias como as escolas, com suas equipes de formação, devem estar preparadas para essa realidade, considerando que o ingresso escolar a partir da matrícula, sem a necessária organização da escola para acompanhamento adequado por profissionais qualificados na área, não se configura como inclusão.
Ou seja, a escola precisa desenvolver projetos que visem a formação continuada de professores da Educação Especial e das classes comuns, incluindo nesse processo pedagógico o uso das tecnologias digitais em sala de aula, com atividades propícias à realidade de todos, nesse processo de formação. Em se tratando de educandos com TEA, tanto as famílias, como a escola e a sociedade, ainda prescindem de conhecimentos que deem suporte às necessidades desses indivíduos (que muitas vezes apresentam diversas comorbidades), cujas características se materializam enquanto dificuldades na construção de conhecimento acadêmico. De outro lado, é possível afirmar que muitos profissionais da educação, ainda não possuem o conhecimento que lhes proporcione base para atuar nessa realidade de modo a atender para garantir a aprendizagem efetiva e de qualidade.
CIÊNCIA E TECNOLOGIA COM GARANTIA DE ACESSO
Segundo Freire (2007, p. 2), “Se o meu compromisso é realmente com o homem concreto, com a causa de sua humanização, de sua libertação, não posso por isso mesmo prescindir da ciência, nem da tecnologia, [...] para melhor lutar por esta causa”. Com essa afirmativa freiriana, pode se lançar como objetivo no processo de ensino que o estímulo da conscientização e das capacidades inerentes do indivíduo seja um dos mecanismos mais favoráveis para a aprendizagem na educação.
Ademais, desenvolver atividades dentro da sala de aula que agucem o pensamento crítico e a autonomia na construção de conhecimento, conforme linha construtivista, é propiciar que haja interação recíproca de saberes entre professor e aluno. Afirma Solange (2009, p. 21), “Ser sujeito é ter direito de se colocar como autor das transformações sociais [...]”, é fortalecer de fato, que a construção dos saberes não estão voltadas apenas ao que o professor transmite, mas com sua mediação e orientação, despertá-lo e encaminhá-lo como sujeito ativo no meio em que vive.
Rocha (2009, p. 15), faz a seguinte reflexão, “Diversas mudanças, no período da virada do século XX para o XXI, contribuíram para que o fenômeno das tecnologias de informação e comunicação ganhasse notoriedade e objeto de pesquisa acadêmica”. Nessa perspectiva, mediante o cenário social com as multipossibilidades que avançam cientificamente e tecnologicamente, é vital a ampliação dos aspectos importantes que motivam nossas crianças e jovens para a sua formação acadêmica, ou seja, além de adequados, precisam estar preparados para exercerem com excelência as suas habilidades sempre associadas a valores dignos sociais, como a inserção no mercado de trabalho, a satisfação no que faz e reconhecimento financeiro.
Ante o exposto faz-se necessário discutir o comprometimento de nossas escolas e de profissionais atuantes em sala de aula para encontrarem inovações que ajudem seus estudantes a planejarem seus estudos e fazerem o uso das ferramentas relevantes para traçar metas e alcançarem objetivos no âmbito educacional. Moran (2009) afirma que as tecnologias nas escolas não fazem com que os métodos pedagógicos sejam eficazes para a aprendizagem se não houver uma preparação da equipe escolar mediante a integração das mesmas, e as mudanças que elas provocam pelas diversas possibilidades de inovação, tornar-se-ão obsoletas.
Faz-se relevante ressaltar esse aspecto, uma vez que o mero uso de tecnologias educacionais adotadas em aulas puramente expositivas, não se traduzem em práticas inovadoras. Seguindo a mesma lógica e dando ênfase a essa temática, Moran (2009) considera importante diversificar as formas de dar aula, de realizar atividades, de avaliar, afirmando:
Haverá uma integração maior das tecnologias e das metodologias de trabalhar com o oral, a escrita e o audiovisual. Não precisaremos abandonar as formas já conhecidas pelas tecnologias telemáticas, só porque estão na moda. Integraremos as tecnologias novas e as já conhecidas. As utilizaremos como mediação facilitadora do processo de ensinar e aprender participativamente. (MORAN, 2009, p. 138)
É notório que a Escola tem a função social de desenvolver as potencialidades físicas, cognitivas e afetivas do indivíduo, habilitando-o a tornar-se um cidadão autônomo, competente e solidário, mediante as exigências que incrementam as disputas por ocupações no mercado de trabalho, como também pelas inovações tecnológicas que têm avançado, incessantemente, como possibilidades no cenário social, que requer hoje mais do que nunca, demandas que refletem fortemente sob a “dimensão processual do ensinar e aprender”, ou seja, as práticas educativas devem sempre se adequar às reais necessidades de mudanças da sociedade contemporânea.
Acrescenta-se a essa conjuntura, no contexto que se pode analisar do trabalho docente, para que a escola moderna possa garantir essa relação da aprendizagem, consoante a nova realidade das interações sociais, deve estar preparada para ser um ambiente “democrático e vivo”, que fomente a apropriação das diversidades como foco pedagógico direcionado por políticas educacionais e dirigidas igualitariamente a todos.
Diversos modelos e métodos têm sido tema de estudo científico, devido ao vigor crescente da necessidade de reflexão sobre as características que definem a pesquisa em educação, segundo Bianchetti e Souza (2007), ou seja, deve-se frisar que a construção desses saberes se faz no ambiente educacional em que os educandos precisam ter acesso a todas as posições ideológicas, políticas e digitais, de conteúdos que trabalhem suas habilidades e competências para fazerem suas próprias experiências de forma perspicaz no meio social, independentemente de suas especificidades.
Em outras palavras, como afirma Souza (2019), propostas de mudanças no cenário educacional já vêm de longas datas; as lutas pelo direito à educação pública, de qualidade, laica e gratuita sempre foram motivos de manifestações sociais. Portanto, para que as possibilidades de aprendizagem sejam oferecidas efetivamente com qualidade, precisam ser garantidas enquanto direito, fator essencial para que se alcance os princípios de uma formação humana, conforme preconizado nos documentos que norteiam a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, o que significa que se utilize da ciência e da tecnologia com garantia de acesso a todos.
Em suma, é no ambiente escolar que o indivíduo tem oportunidade de estar diante de muitas opiniões, aprender a ouvir a do outro e assim poder formar a sua própria opinião. Ademais, é possível afirmar que a educação, que se configura como o processo entre ensinar e aprender, tem finalidade social, servindo também para a manutenção da sociedade, haja vista que a melhoria da qualidade da educação seja o eixo da reforma educativa que conduz o profissionalismo docente na tentativa de contribuir com a promoção de políticas públicas para o atendimento com eficiência e equidade das pessoas, inclusive das que apresentam necessidades específicas decorrentes de deficiências em interação com o ambiente em nossa sociedade. Esses na verdade, são alguns dos desafios que necessitam urgentemente serem assistidos para garantir aprendizagem significativa.
Talvez a defendida “qualidade” da educação seja um dos maiores desafios e indubitavelmente o que manifesta como o mais difícil de ser alcançado. Logo, a criação de políticas imbricadas com o desempenho do papel da educação na sociedade, deve assegurar as condições necessárias para que os educandos tenham acesso aos conhecimentos, compreendam a realidade e continuem aprendendo de forma crítica e criativa, de modo que possam exercer a plena cidadania, participando do processo de formação e construção do ambiente social em que vivem.
Segundo Herkenhoff (2005), “[...] educação não é um tema isolado, mas decorre de decisões políticas fundamentais. Isto é, a educação é uma questão visceralmente política”. Nesse contexto, mais do que se preocupar em constituir um direito social, para as ações políticas o tema educação sempre esteve inextricável aos interesses do estado, dos modelos econômicos, e porque não dizer, de interesses individuais.
De fato, as instituições educacionais sempre lutaram por autonomia em prol de valorizar os conhecimentos construídos ao longo da história que ressaltam a importância dos acontecimentos sobre o mundo físico, social, cultural e também digital que servem como fontes para que a humanidade entenda e consiga explicar a realidade, na perspectiva de colaborar com a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusa, segundo o Inciso V, do artigo 206, da Constituição Federal. (BRASIL, 1988).
Não é possível analisar questões da educação apartada das questões políticas, se considerarmos que as políticas públicas nascem das demandas educacionais, que por sua vez surgem de cada momento histórico e social. Portanto, a luta pelo direito de participação na vida política do país, o desejar ter voz, é parte da construção da identidade social. Pode-se dizer então, que a formação de profissionais capacitados se constrói em virtude da estreita relação entre a aprendizagem e a construção da cidadania.
Para Goergen (2014, p. 567), “Se o mundo se produz e reproduz, se a vida depende da produção do conhecimento e de sua aplicação, é hora de refletir sobre as condições sociais sob as quais se criam e se usam os conhecimentos”, concomitantemente com critérios que alcancem a realidade que exige o mercado de trabalho vigente, visando inclusão de conhecimentos tecnológicos, científicos e com acesso igualitário à justiça, consoante os aspectos da democratização.
Neste cerne, seria a valorização da escola pública que daria ao profissional da educação o espaço para atuar e manter nesse ambiente os temas da contemporaneidade propícios ao debate e a troca de ideias. Meramente, hoje existe uma cultura das classes menos favorecidas e das classes dominantes e essas culturas se fazem presentes dentro da sala de aula. Por isso, o professor deve estar preparado para as diversidades, proporcionando um ambiente dialógico na sala de aula, pois há várias vozes, de várias leituras de diferentes mundos.
Em suma, acredita-se que o grande desafio da educação, da pedagogia que ainda insiste em ser tradicional, é tirar o foco e o protagonismo do professor e compartilhar esse protagonismo com os alunos, ou seja, a área que o professor habita dentro da sala de aula não pode ser vista como um ambiente de imposições, de poder, que exprime a única verdade válida do conhecimento. Então, que se possa visar a liberdade de ensinar e aprender não apenas com a voz do professor, mas também dando lugar às outras vozes que possibilitarão o enfrentamento de situações problemas, incluindo projetos de mundo e evidenciando formas adequadas às necessidades humanas, à vida em sociedade.
No cenário do trabalho docente, acredita-se que a ausência de aparato tecnológico em algumas escolas ainda é um dos maiores desafios, o que resulta na exclusão, porém é fato, que mesmo com diversas problemáticas existentes em relação ao seu uso e acesso, é extremamente relevante que haja sua interação nas atividades pedagógicas para um contexto educacional inclusivo. Desse modo, a apropriação da tecnologia, a liberdade de expressão, o lidar com educandos com deficiências são confrontos que necessitam urgentemente serem assistidos para garantir a aprendizagem significativa.
É possível ressaltar nessa circunstância, que os desafios relacionados à inclusão podem se dar por problemas estruturais, culturais, tecnológicos e sociais e que o professor deve estar preparado para repensar suas práticas em sala de aula e ter liberdade de pensamento e de voz. Para isso, é essencial considerar que a falta de formação adequada para enfrentar esse tipo de realidade ampliada por questões políticas, dificulta ainda mais que sejam alcançados ganhos na aprendizagem.
ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO, TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA E FORMAÇÃO DOCENTE PARA O USO DE TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO
Afirma Alves (2020, p. 10 e 11) “Neste novo cenário a ação curricular tem nas TDICs um forte aliado para potencializar práticas de inovação pedagógica[...]”. Logo, com os avanços tecnológicos a sociedade se encontra “marcada pelo forte pendor da mobilidade e ubiquidade” (ALVES, 2020, p. 10) tão próximas do ambiente escolar, por isso nas ações do professor devem estar inclusas essas ferramentas para adequar suas práticas em sala, conforme as necessidades que exige a educação atual.
Nessa direção, é imprescindível pensar na formação para o Atendimento Educacional Especializado – AEE e na perspectiva de desenvolvimento das Tecnologias Educacionais voltada para a formação de professores.
Considerando essa necessidade, algumas Instituições de Ensino, como a Universidade Federal do Tocantins – UFT, tem desenvolvido projetos com objetivo de habilitar professores da rede pública estadual que atuam diretamente com educandos com TEA, sobre questões pertinentes à educação especial, nas especificidades do desenvolvimento e aprendizagem desses educandos, além de evidenciar ações incluídas nesse processo voltadas para o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação - TDICs.
Nessa perspectiva, a UFT iniciou o Projeto TEA-TDIC, no final do ano de 2019, a partir da necessidade de proporcionar maior suporte à educação especial, basicamente com a questão do uso das TDICs no atendimento à escola, aos professores, mas sobretudo focando no acolhimento aos alunos com autismo dentro das redes de ensino público do Estado do Tocantins. Esse modelo de projeto de ensino, pesquisa e extensão em atendimento à escola, mas em especial aos profissionais que trabalham com o apoio especializado, consta de quatro eixos, que incluem o Curso de Especialização em Transtorno do Espectro Autista no Âmbito das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação – TDIC.
O eixo de trabalho do Projeto TEA-TDIC voltado à Especialização (Lato Sensu) de professores de escolas públicas da educação básica do Tocantins, oferece formação continuada para que esses profissionais se habilitem à melhor atuação docente com educandos com TEA, no desenvolvimento de suas potencialidades e habilidades.
Outro eixo do Projeto TEA-TDIC ocorre em ciclos de palestras e debates que visam a compreensão das características específicas do TEA, relativas à socialização, comportamento, linguagem e comunicação. Além disso, objetiva aproximar essa realidade das necessidades específicas aos olhos da gestão pública, no sentido de garantia de direitos.
Embora o Projeto tenha sido organizado na modalidade presencial, as circunstâncias trazidas pela pandemia por COVID-19 geraram a necessidade de mudanças no formato de aulas, que passaram a ocorrer na modalidade remota, com uso de plataforma digital. Verifica-se aqui a importância do uso da TDICs na formação de profissionais da educação e a confirmação que as possibilidades pedagógicas de uso da internet se ampliam permanentemente e que é necessário usar a rede como espaço formativo que proporciona diferentes modos de ensinar e de aprender. O domínio das ferramentas tecnológicas, tanto por parte dos docentes quanto por parte dos discentes, é fator preponderante para o alcance dos objetivos traçados para a formação em curso. A interação permitida pelas diversas possibilidades que a tecnologia digital proporciona, conduziu inclusive, à organização de palestras (lives) utilizando redes sociais.
Nesse propósito, exemplifica-se abordagens como as lives que integraram o Ciclo de Palestras “Vidas Autistas Importam e Inspiram”, no plano da disciplina Transtorno do Espectro Autista: fundamentos teóricos e metodológicos, definição e características clínicas, do referido curso de especialização.
Especificamente nesta disciplina ocorreram duas palestras em alusão ao dia do Orgulho Autista com os temas “Conhecendo as HQs do Lucas” e “Conhecendo o Introvertendo: um canal de diálogo feito por e para pessoas autistas”, em que foram discutidos exemplos de resiliências, histórias relevantes de contextos diferenciados.
Em “Conhecendo as HQs do Lucas” a ênfase recaiu sobre as questões familiares para a transposição de barreiras relativas ao gozo de direitos à saúde e educação, o que possibilitou a compreensão da importância de envolver a família na atenção à pessoa com TEA e a necessária formação dos profissionais envolvidos para a percepção das possibilidades de desenvolvimento desses indivíduos, enquanto produtores de conhecimento; seus avanços acadêmicos, até o ensino superior; sua autonomia e produção laboral.
A live “Conhecendo o Introvertendo: um canal de diálogo feito por e para pessoas autistas” relatou o percurso de um indivíduo com TEA cujo envolvimento com tecnologias foi fundamental para transposição de dificuldades que o impediam de ser um sujeito atuante socialmente. Neste caso, o contexto tecnológico (ciberespaço) possibilitou a minimização de restrições sociais comumente enfrentadas por indivíduos com TEA.
A adoção de TDICs com esse propósito evidenciam a criação de oportunidades na sociedade para o compartilhamento de histórias importantes sobre pessoas com TEA que, mesmo de contextos diferenciados, retratam realidades semelhantes, ou seja, possibilidades de superações, com depoimentos de jovens que ressignificaram os conceitos do autismo estabelecidos dentro dos padrões da neurodiversidade, desmistificando certas concepções que presentes no histórico desses indivíduos, principalmente nas potencialidades dos desenvolvimentos cognitivos, afetivos e de interações sociais que correspondem inextricávelmente às habilidades que qualquer indivíduo conseguiria executar.
Também enseja aos profissionais em formação conhecer melhor as especificidades do TEA, bem como entender os desafios enfrentados pelas famílias, pelos profissionais da educação e de outras áreas, bem como pelo próprio indivíduo com TEA que desafia a epistemologia em suas particularidades de desenvolvimento. Acrescido a isso, mesmo vivenciando um cenário social de exclusões, põe em ênfase que o conhecimento aprofundado sobres as questões que envolvem o TEA têm gerado aumento no acesso de educandos com TEA ao ensino superior.
Intrinsicamente, precisa-se ressaltar que os aparatos tecnológicos servem de desafios que complementam o processo de interação do ensino e aprendizagem. Segundo Kenski (2004, p.24), “com a ampliação e o acesso das diversas possibilidades de comunicação e informação através dos materiais midiáticos, em virtude dos avanços tecnológicos, modifica-se as formas de aprender, e consequentemente, as de ensinar”. Logo, acredita-se que ao pensar em mudanças no processo do ensino e das inúmeras inovações, diversos educandos, independentemente de seu quadro clínico, podem estar se associando às ferramentas digitais em suas práticas diárias de formação acadêmica com resultados satisfatórios na aprendizagem.
Portanto, oportunizar formações adequadas aos profissionais da educação é fundamental para esse processo, ainda que o desafio esteja nas diferenças de cada aluno como sujeito atuante, dotado de conhecimento específico, seja cognitivo ou afetivo, ou que seja na falta de aparatos tecnológicos, entre outros. Pretto (1999, p. 104) afirma que “em sociedades com desigualdades sociais como a brasileira, a escola deve passar a ter, também, a função de facilitar o acesso das comunidades carentes às novas tecnologias”.
Consoante Alves (2020, p.23), embora as “escolas possuam equipamentos multimídia como computador ligado à internet”, muitos professores ainda não se adaptaram ao seu uso, portanto, a formação dos professores se manifesta como uma estratégia para superação de obstáculos para qualquer inovação tecnológica inserida na escola e deve ser urgentemente intensificada.
Precisamos considerar que o que se espera dos ciclos escolares é a preparação de educandos desde o início da formação acadêmica para que possam ser atuantes como cidadãos de valor nesse mundo em transformação, e cabe ao professor como agente mediador, instigar seus alunos a participarem das atividades sugeridas, e intencionalmente, conduzi-los aos estudos individuais, no sentido de se constituírem auto didáticos.
Segundo Piaget (1998):
Construtivismo é um equilíbrio por auto regulações que permite remediar as incoerências momentâneas, resolver os problemas superar as crises ou os desequilíbrios por elaborações constante de novas estruturas que a escola pode ignorar ou favorecer, segundo os métodos empregados. (p.49)
Com o apoio digital, além dos livros, há vastos recursos de informações facilmente acessados pelo uso das redes digitais, de forma rápida e significativa, que incluem materiais audiovisuais, como vídeos, jogos, músicas, multimídias, o que permite maior dinamicidade ao usar a tecnologia. Com relação a esta interatividade, Menezes (2010) afirma:
Os sistemas de comunicação evoluem com extrema rapidez e essa dinâmica é parte da vertiginosa modernidade em que estamos imersos. Não podemos nos deslumbrar com essas novidades ou ficar apreensivos pelo perigo de que substituam nossa função de educar. Mas não devemos ignorar as possibilidades que eles abrem para aperfeiçoar nosso trabalho, como o acesso a sites de apoio e atualização pedagógica ou a programas interativos para alunos com dificuldades de aprendizagem. (p.122).
Conforme ressalta Gomes (2012, s.p.) ”As tecnologias estão cada vez mais presentes em sala de aula, o professor tem que se preocupar em preparar o aluno para ser atuante em um mundo em transformação e ajudá-lo a desenvolver as tão faladas competências específicas para o século 21”. E para as crianças e jovens autistas não pode ser diferente. Ainda “engatinhamos” nesse processo tecnológico que nos conduz às vezes a exclusão digital, ao invés da inclusão, não pela sua falta, mas pelo desuso, “[...] a presença ausente significa emergência como o ‘ainda-não’, isto é, um fato que não existe, mas está emergindo” (ROCHA, 2009, p.15), tento em vista esse contexto, o que acontece em nossas escolas é que o profissional da educação ainda se depara, simultaneamente, com as inovações tecnológicas e com o déficit em sua própria formação para o uso das mesmas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo em vista a carência de estudos que tenham como objeto principal a formação de professores na mediação do uso das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação no ensino de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, há necessidades de pesquisas destinadas a propor e avaliar ferramentas digitais na aprendizagem de conteúdos escolares que vão além de ensinar habilidades motoras, cognitivas e de interações sociais, mas que também seja possibilitado a esses educandos serem inseridas no mundo do letramento, dos conhecimentos científicos, da informação, entre outros.
Em se tratando da transformação digital e dos avanços das tecnologias nos últimos anos, torna-se indispensável o preparo de professores/mediadores no processo de ensino-aprendizagem relacionada a essa estrutura de estudo que aproxima ensino, tecnologia e autismo. Verifica-se veemente a necessidade de serem observadas ferramentas apropriadas a esse público, conforme suas especificidades, com recursos didáticos adequados à suas condições de linguagem e percepções para melhor interação no ambiente escolar. O intuito é que as ferramentas digitais não fiquem associadas apenas ao desenvolvimento cognitivo, contudo que se trace um paralelo entre esse estudo, a formação de professores e o ensino, como objeto de pesquisa no uso das tecnologias.
O uso pedagógico das TDICs permite uma multiplicidade de interações entre indivíduos, podendo gerar uma comunidade de práticas em que profissionais da educação e educandos, alinhados em objetivos comuns, construam conhecimento, em um processo de retro alimentação em que cada um é convidado a um processo colaborativo de potencialização de saberes.
O desenvolvimento de uma prática é um processo cultural e, como tal, implica na estruturação de comunidades em que todos necessitam se perceber envolvido e competente para o processo. O compartilhamento de saberes, o desenvolvimento de capacidades a partir das habilidades individuais, o aprimoramento de recursos criativos para a resolução de situações cotidianas que envolvem a construção de saberes escolares necessários, acenam para formas de interação com o conhecimento que vão para além do comumente vivenciado nas escolas.
Acenam para a amplitude de possibilidades que as TDICs podem promover e que contribuir significativamente para a formação continuada de professores que atuam junto ao educando com TEA.
Nesse sentido, faz-se necessário a construção de políticas públicas que facilitem o desempenho do papel da educação na sociedade, que deva assegurar as condições necessárias a todos os estudantes, inclusive os com necessidades específicas decorrentes do TEA em interação com os ambientes escolares, para que tenham acesso aos conhecimentos e que aprendam de forma crítica e criativa, e assim possam exercer a plena cidadania participando do processo de formação e construção do ambiente social em que vivem.
Destarte, para que haja a garantia da aprendizagem de qualidade e que seja satisfatória igualmente, com o uso das tecnologias, com o avanço dos estudos científicos ou com a sua reelaboração, é imprescindível começar, primeiramente, a superar as desigualdades, tanto sociais como intelectuais pautadas na transparência e nos seus resultados. Diante disso, deve-se lançar um olhar iminente para o processo de ensino e aprendizagem em nossas escolas, repensando a formação docente, a acessibilidade e a democratização que servirão de alicerce para o desenvolvimento do trabalho de gestão em sala de aula, somados ao apoio da família, da equipe escolar e do acesso aos investimentos, com recursos que atendam a formação de cada aluno, mesmo nas diversidades.
REFERÊNCIAS
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